[Cinema] O contador de histórias

Se quando alguém te diz: “Hey, você já viu aquele filme sobre o contador de histórias?” a primeira coisa que vem à sua mente é o premiado filme com Tom Hanks, bem, então é hora de rever os seus conceitos. Ou talvez assistir a este excelente filme nacional, ainda em circuito nos cinemas do país.

“O Contador de Histórias”, filme do diretor Luiz Villaça (“Por trás do pano” e “Cristina quer casar”), conta a história, real, de Roberto Carlos Ramos, o mineiro que, tendo passado uma parte considerável de sua infância na FEBEM de Belo Horizonte, viu-se salvo da sina de criminalidade e morte que o esperava por uma senhora francesa, de muito bom coração e, talvez, uma quantidade muito pequena de bom senso.

Primeiro, vamos à história por detrás da história. Roberto Carlos Ramos era o filho mais novo de uma família com dez crianças. Sua mãe, lavadeira, com muito esforço sustentava a casa. Um dia, enquanto assistia televisão na casa de um dos vizinhos, que abria as portas a todos da favela por ser o único que possuia um televisor, a mãe de Roberto viu uma propaganda, claramente militar, sobre os benefícios da FEBEM como lugar de combate à marginalidade e à miséria infantil. Como a senhora só podia colocar um dos filhos na FEBEM, escolhe o caçula, então com seis anos, com as esperanças de que ele tenha escola, comida e uma cama própria, bem como condições de se tornar doutor.

Se você pode acessar esta minha página, então sabe que a FEBEM nunca foi, nos anos em que existiu, esse oásis de civilidade e salvação. Muito pelo contrário. Como Margherit (a bela atriz portuguesa Maria Medeiros, que tem no currículo muitos filmes brasileiros – como “O xangô de Baker Street”, bem como filmes internacionais, como “Pulp Fiction”) diz num determinado momento: se aquilo que a FEBEM está travando é uma guerra, então eles a estão perdendo.

Bem, depois de inúmeras fugas e recapturas, Roberto Carlos, 13 anos, é considerado irrecuperável. É quando uma pedagoga francesa, Margherit (Maria Medeiros) surge na FEBEM interessada em fazer uma pesquisa (parece-me que de história de vida, mas isso não vem ao caso) e tem seu destino misturado ao de Roberto.

Conto essas coisas sem medo de estragar a história do filme porque é uma película biográfica. A história de Roberto Carlos Ramos, pedagogo e contador de histórias, pai adotivo de 13 crianças, é pública e notória, se sabe pelos livros. A beleza do filme então, não está em apresentar algo inédito: do contrário, é apresentar uma história conhecidamente tocante e de forma igualmente tocante. O resultado, um filme de emocionar mesmo agora, quando o descrevo, quase uma semana depois de assisti-lo.

No filme, o papel de Roberto Carlos é desempenhado por três diferentes atores. Aos 6 anos, por Daniel Henrique; aos 13, por Paulinho Mendes e, aos 19, por Cleiton Santos. É ponto pacífico em todos os textos que li sobre o filme, a excelência das atuações dos garotos. Tanto Daniel como Paulinho (que se destaca mais por ter mais tempo na película) são fantásticos. Inclusive, é ele quem abre o filme, como uma cena pesada e dramática, que com muita facilidade cairia na pieguice. Mas não cai, graças ao diretor também, e muito por Paulinho, que tem a expressão certa, sem caricaturas, sem estereotipias.

Já que citeia  competência de Luiz Villaça na cena inicial, acho justo ressaltá-la aqui. Sua direção e a edição feita ao filme são belíssimas e, pode parecer até meio óbvio, mas ao seguir o caminho (esperado e quase natural) de colocar narração em off durante grande parte do filme (oras, é o filme sobre um contador de histórias!) ele acerta em cheio: o recurso traz a emoção e a dramaticidade certa, principalmente quando aliado à excelente direção de atores que ele apresenta.  Inclusive, do elenco, talvez apenas Cleiton Santos e Victor Augusto da Silva (o “vilão” Cabelinho de Fogo aos 17 anos) não atinjam o alto nível estabelecido pelos demais. Mas isso não é uma falha da direção, me parece muito mais uma dificuldade destes atores ante a imensa competência dos demais: ou seja, eles são bons, mas os outros são muito melhores. Mas, ainda que seja injusto caracterizar como uma falha, há um recurso utilizado pelo diretor e que incomoda, e é seu hábito de lentificar e chacoalhar a câmera nos momentos mais aflitivos. Se isso tem um efeito muito bom na cena em que Roberto e Margherit se conhecem, seu surgimento na cena em que Margherit é traída tem o gosto ruim de chavão novelístico.

Em resumo, “O Contador de Histórias” é um filme muito, muito bom mesmo. É tocante a ponto de toda a sala de cinema (que não estava muito cheia, infelizmente) ficar dando aquelas fungadinhas de choro durante mais de metade da exibição. Inclusive, é muito interessante um fato: depois de “Troppa de Elite”, embarquei numa onda de ignorar os (constantes) filmes brasileiros sobre pobreza, favela, crime, sertão e ditadura, temas que praticamente dominam o cinema nacional. Ainda que “O Contador de Histórias” esteja num desses grupos (a pobreza) ele não é um filme sobre a pobreza. Faço um paralelo com “O ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburger, um excelente filme de ditadura sem sê-lo. O Brasil precisa fazer mais filmes que fujam desse arroz com feijão batido e já sem gosto. Precisamos de mais contadores de histórias, pais saindo de férias, redentores (um dia ainda falo dele) e menos de carandirus, cidades de deus e homens desafiando o diabo. Não que estes últimos sejam ruins (e, exceto pelo último, não são), mas saturaram.

Em analogia, “O Contador de Histórias” está muito mais “A Procura da Felicidade” e “Forrest Gump” do que para “Pixote”, o que prova que nós sabemos fazer. Basta boa vontade e boas histórias. Coisa que esse filme tem por demais.

[Música] Nhambuzim – “O Rosário” (2008)

Nhambuzim

Tal qual a vida, a internet é um negócio cheio de surpresas. Outro dia, acredito que estava procurando imagens da versão global de “O Grande Sertão: Veredas”, obra máxima de Guimarães Rosa, e que na versão para a Tv contou com Tony Ramos no papel de Riobaldo/Tatarana.

Daí me deparei com essa imagem acima, a capa de um CD. De um desconhecido grupo chamado “Nhambuzim”, o álbum de nome “Rosário” trazia, logo abaixo do título a descrição de que eram “Canções inspiradas no sertão de Guimarães Rosa”. Foi o suficiente, fiquei instigadíssimo. Como o link da imagem remetia a um famoso blog de downloads de discos, resolvi arriscar. Deu no que deu.

“Rosário”, disco de estréia da banda, é esplêndido. Uns arranjos regionais sem soar com aquele pedantismo intelectualóide de quem se quer ver vanguarda ou com aqueles que parecem ter parado no tempo. As vozes são deliciosas: há momentos em que Sarah Abreu canta e o mundo parece que pára lá fora. E as letras, que geralmente são o meu ponto favorito numa canção? Não ficam atrás nem por um minutinho que seja. Recheado de composições próprias (permeadas por canções de domínio público – “Aboio” e “Encomendação das Almas”; e outras duas de grandes nomes da música brasileira, como Paulo Cesar Pinheiro – “Sagarana” e Caetano fazendo dupla com Milton Nascimento em “A Terceira Margem do Rio”), as menções ao sertão de Rosa variam de intensidade: ora são explícitas no conteúdo (“Notícia do Norte”), ou na linguagem com conteúdo (“Nonada de Mim”, minha favorita), e outras vezes acabam sendo mais sutis (como na própria “A terceira margem do rio”). O resultado é que o disco passa longe de ser uma aula de literatura cantada. É um som gostoso que acompanha bem não só o sertão de Rosa, como outros sertões. Nhambuzim2Uma única chateação é a “dificuldade” para adquirir o disco. Na net, ele só é encontrado no site da Paulus (e o preço está bem pouco convidativo, R$ 30,00). Ainda não tive tempo de visitar a loja (tijolal) da editora para ver se o preço encontra-se mais agradável. Se bem que, pela qualidade do material, vou acabar desembolsando a quantia uma hora ou outra.

Serviço

Nhambuzim é formado por: Sarah Abreu (voz), Xavier Bartaburu (piano e arranjos vocais), Edson Penha (voz e berrante), Joel Teixeira (voz, viola e violão), André Oliveira (percussão), Itamar Pereira (baixo) e Rafael Mota (percussão).

Para saber mais (e ouvir o som da banda) acesse o site oficial, http://www.nhambuzim.com/

[Cinema] Apenas o fim.

Pra começar logo com o pé direito, vamos com um filme que, ao menos na blogosfera e nos meios internéticos em geral, tem dado o que falar. Matheus Souza, um jovem estudante de cinema da PUC-Rio escreveu e dirigiu o filme sobre o casal de namorados onde a garota, um belo dia, decide fugir, ir embora. O “Feito no Brasil” foi assistir e agora conta a você tudo sobre o filme (mas sem estragar – muitas – surpresas!).

Pra ganhar tempo, vamos “pegar emprestada” a sinopse que circula por aí:

Adriana (Érika Mader) decide fugir de sua vida comum abandonando seus pais, seus amigos e o namorado Tom (Gregório Duviver) sem dar explicações sobre seu destino. Mas antes de partir, ela resolve passar a última hora com ele, tendo uma longa conversa enquanto andam pela faculdade. Eles falam de seu relacionamento lembrando o passado, imaginando o futuro e discutindo uma série de medos e questões envolvendo a geração de que fazem parte.

Antes de continuar, é preciso dizer que o filme já nasceu premiado, foi escolhido pelo júri popular como melhor filme no Festival do Rio do ano passado e na 32ª Mostra Internacional de São Paulo. E a razão de tanto frisson não é difícil de compreender: Matheus Souza, ao escrever a história de Tom e sua namorada que vai partir colocou na tela, de forma quase crua (mas não entenda crueza como dureza) os anseios de uma geração inteira. Jovens entre os 20 e os 30 anos, que ainda não se vêem plenamente adultos mas que no fundo sabem que já estão lá. Matheus escreve diálogos recheados de cultura pop, de citações que vão de pokémon a Power Rangers originais (aqueles dos idos de 1994!), passando mesmo por He-Man. Inclusive, é esse caldeirão de referências pop que lhe rendeu (apressadamente, na minha opinião) a alcunha de Kevin Smith brasileiro.

Quero dizer que Matheus Souza e seu filme não são bons? Não senhor, o trabalho é de muita qualidade. Mas, há um pera lá. Não é porque é nacional, que é independente, que nós vamos passar a mão na cabeça e dizer que tá tudo lindo. Não é a proposta e ninguém cresce assim.

Mathues Souza tem talento? Inegavelmente. Seus diálogos cheios de referência e um humor quase sutil, de uma observação genuína dos tipos humanos (homini universitarius na maioria das vezes) é sagaz. Não dá pra negar isso tudo, ao mesmo tempo que também não se nega que, tendo estreado com o pé direito, o autor/diretor ainda tem muito pra crescer e melhorar, e aí sim tornar-se o nosso (ou melhor) Kevin Smith.

Talvez um dos problemas seja ter encontrado uma “fórmula”: mais da metade do filme os diálogos se resumem justamente às referências. É Tom perguntando, em flashback, à namorada que filme ela seria, que pokémon, que coadjuvante de Sonic, que cavaleiro do zodíaco, que música… Pode parecer o justo contrário, mas os personagens não se desenvolvem. É tanta “informação” (Shyriu, Bubbassaur) que não se absorve tudo. Mesmo porque, para absorver tudo, teria de se conhecer todas aquelas referências. Como a fórmula se repete tanto, acaba gastando também. E cansando. E o pior é saber que a fórmula se repete não porque o autor não consegue fugir dela: pelo contrário! Há cenas realmente memoráveis, onde essa questão toda sequer se insinua (quando por exemplo, a garota dá um carrinho de plástico a Tom e pede que ele entregue ao irmão mais novo) ou na cena da interpretação dos sonhos da namorada. Aqui inclusive se ressalta outro ponto: talvez por seu caráter evidentemente autobiográfico, Tom é um personagem muito mais consistente do que a namorada (cujo nome – Adriana- sequer nos marca). Nós sabemos como ele pensa, a forma como encara a partida da namorada, tudo com muita clareza. Dela só podemos inferir, ou ouvir numa frase quase solta ao final. Sua personagem é tão rasa, que sua decisão de fugir simplesmente não cola. Parece que ela encontrou um bombadão na praia, que engravidou do melhor amigo de Tom, qualquer coisa. A última hipótese é que ela deseja “se perder pra se encontrar”, como diria Lulu Santos.

Mas mesmo no paraíso temos problemas, e se Tom é um personagem muito melhor que Adriana, Erika Mader também é uma atriz muito melhor do que Gregório Duviver. O rapaz é canastrão demais muitas vezes, e encarna um nerd completamente estereotipado, daqueles que gaguejam o tempo todo para falar e que só sentem emoção sobre qualquer coisa três dias depois. A cena do banheiro deixa claro o desejo de Matheus em afirmar o sofrimento do personagem, mas a interpretação de Duviver é tão inferior à de sua colega de cena que você pensa que ele está é com prisão de ventre e não em pânico por ser abandonado.

Enfim: pode não parecer (pelo que escrevi aqui) mas “.apenas o fim.” é um filme muito bom. Tem em si aquele gosto gostoso de cinema independente, sem nenhuma porralouquice de “vanguarda intelectual”. É um filme sincero e honesto, sem traficantes, sem folclore nordestino, sem falar de favela. É um filme daqueles que o Brasil ainda está precisando aprender a fazer, aquele cinema cotidiano tão legal de se ver. O filme peca? Claro que peca! Caçamba, é a estréia do cara, ainda tem muito pra amadurecer. Mas veja bem, eu disse amadurecer. Ou seja: Matheus Souza tem um potencial enorme, desde que se lapide. E isso acontecendo, meu chapa, pode ter certeza que ganharemos um cineasta de primeira linha…

Agora é esperar sair em DVD para ganhar espaço no cofre!

Feito no Brasil/Made in Brazil

feito no brasil

Pois bem senhoras e senhores, eis que nasce mais um blog nessa imensa e global e maluca web!

O “Feito no Brasil” está oficialmente no ar! Pra falar de cinema, de gibis e de música de qualidade produzidos nessa nossa Pindorama! Se você, assim como eu, tem o sangue verde-e-amarelo, puxe logo uma cadeira porque a coisa vai começar!